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jun 22

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Quais são as lições da evolução do mercado de música em 2016 para o músico e produtor independente?

Objetivos

O presente artigo tem como objetivo analisar as tendências atuais da evolução das receitas globais e brasileiras de venda de música e apresentar algumas lições para quem quiser vender diretamente sua música (músicos ou produtores fonográficos independentes).

Evolução das receitas globais da indústria da música

A Receita global da indústria da música cresceu 5,9% em 2016 atingindo 15,7 bilhões de dólares. O streaming interativo (escuta de música sob demanda) foi o responsável nos últimos anos pela lenta, porém consistente recuperação do mercado fonográfico mundial em todas as suas regiões, tendo o número de assinantes ou subscritores de plataformas de streaming de músicas alcançado a marca de 112 Milhões no mundo inteiro em 2016.

Em 2016, as receitas globais de streaming cresceram +60,4% enquanto que as receitas globais com o download de música tiveram um declínio de -20,5% e as receitas com as vendas físicas de CDs e DVDs tiveram um declínio de -7,6%.

Evolução das receitas brasileiras da indústria da música

O Brasil se tornou um mercado de streaming em 2016!

A superioridade do modelo de negócio de streaming (Apple Music, Spotify, Deezer etc) já está consolidada no Brasil em 2016. O streaming remunerado, tanto por subscrição como por publicidade, é o modelo que mais gera recursos para o setor. Em 2016, o streaming de música cresceu +52,4% no Brasil enquanto que as receitas de vendas físicas de CDs e DVDs tiveram um declínio de -43,2% e as vendas de música por download tiveram um declínio de -44.9%.

 

Modelo de negócio Receitas brasileiras em 2016 Evolução

2016 vs 2015

Streaming USD 90,8 milhões +52,4%
Execução Publica (rádio, shows) USD 84,0 milhões -2,8%
Físico (CDs e DVDs) USD 33,0 milhões -43,2%
Downloads USD 9.4 milhões -44.9%
Sincronização USD 1,1 milhão -8,4%

Fonte: Associação Brasileira dos Produtores de Discos – ABPD

No Brasil, mais de 75% das receitas da indústria de música são relacionadas a receitas por escuta (streaming ou execução pública). O brasileiro prefere pagar pelo direito de escutar música (streaming ou shows) do que pagar pela compra de música digital (MP3s) ou física (CDs ou DVDs).

Lições para o músico e produtor independente:

1.O mercado brasileiro se tornou um mercado de Streaming.

No Brasil, o sucesso do modelo de negócio de streaming se explica não somente pelo baixo custo dos serviços de streaming, mas também pela estrutura das conexões de acesso a internet. No Brasil, estima-se que 121 Milhões de brasileiros usam a Internet e que 106 Milhões de conexões são feitas com smartphones, 28 Milhões com tablets e apenas 24 Milhões com banda larga. Por este motivo, considerando as limitações de capacidade de memoria de estocagem de arquivos mp3s nos smartphones populares e as dificuldades de downloads de música com os celulares, o sucesso do modelo de streaming no Brasil não é surpreendente.

2. O músico independente precisa poder gerar seus próprios códigos ISRC.

Para o músico independente, a consequência imediata do desenvolvimento do streaming é que ele precisa colocar suas músicas nas redes internacionais de streaming tais como o Spotify, Deezer, Rdio, Google play para poder lucrar com suas músicas. A segunda consequência é que o músico precisa se tornar um produtor fonográfico para conseguir gerar seus próprios códigos ISRC sem os quais ele não pode comercializar adequadamente globalmente suas músicas. O manual prático de produção musical independente explica o passo a passo que o músico deve seguir para comercializar suas músicas na internet.

3. O cliente é pouco sensível à qualidade do áudio.

Considerando as diferenças de qualidade de áudio que existem entre os arquivos ultra comprimidos de streaming, os arquivos MP3s, os CDs e os DVDs, é possível afirmar que o consumidor atual é pouco sensível à qualidade e à resolução da música que ele consome, como atesta o sucesso do modelo de negócio de streaming. Isso se explica em parte pelo fato que normalmente as pessoas estão acostumadas há mais de uma década com uma qualidade mediana de áudio comprimido no formato MP3 e acabam não percebendo mais as perdas que arquivos muito comprimidos de streaming possuem. De fato, para os entusiastas da música em alta resolução que gostam de escutar músicas não comprimidas nos formatos PCM, WAV ou AIFF, um arquivo no formato MP3 (por mais que ele tenha um bitrate alto de 256kbps, por exemplo, ou seja, menos comprimido) já foi comprimido em excesso e não tem mais a qualidade necessária para ser considerado como ótimo. Por outro lado o consumidor atual está ciente que não adianta muito escutar arquivos em alta resolução em fones de ouvido de qualidade básica, tais como aqueles que são vendidos junto com os smartphones. Portanto, se você é músico independente não se deixe enganar pelos estúdios de gravação que vendem seus serviços enfatizando a importância da qualidade do áudio e das gravações feitas com taxas de quantização de 24 bits. A realidade é outra como atestam as estatísticas. Atualmente o consumidor consome baixa qualidade de áudio em streaming e não vê nenhum problema nisso. Portanto, gravações feitas em home studio com resolução de 16 bits (qualidade CD) são ótimas e suficientes para comercializar diretamente suas músicas. Uma gravação em 24 bits em estúdio profissional não dará nenhuma melhoria de áudio considerando o processo de compressão que as plataformas de streaming irão fazer com suas músicas. Lembre-se que atualmente apenas uma minoria de consumidores compram música em alta resolução (CDs ou arquivos não comprimidos em WAV). As vendas por download são principalmente de música no formato mp3 e raramente em formatos não comprimidos.

4. O Youtube não é uma plataforma rentável para o músico e produtor independente.

Os estudos atestam como o Youtube se beneficia legalmente nos Estados Unidos de vantagens (conceito de “safe harbour” criado na legislação americana pelo Digital Millenium Copyright Act DMCA de 1998) que permitem remunerar muito pouco os artistas. Portanto, o Youtube não é uma plataforma rentável para o músico e produtor independente. O conceito de “safe harbour” cria uma rede de proteção ao Youtube em relação à sua responsabilidade sobre o conteúdo veiculado na plataforma, que permite impor condições ao mercado musical infinitamente inferiores àquelas obtidas junto aos demais parceiros digitais do setor (Spotify ou Deezer por exemplo). Estudos mostram por exemplo que o Spotify paga 20 vezes mais para os artistas do que o Youtube. Essa diferença pouca conhecida pelos produtores independentes é conhecida como o “value gap” e é o maior problema do músico independente quando ele usa apenas o Youtube para tentar viver de música. Em realidade, um músico tem maiores oportunidades de viver de música com uma distribuição global das suas músicas em todas as plataformas de distribuição digital se ele tem um público fiel que curte, escuta e compra sua música. Esperar tornar-se viral no Youtube, não é uma boa estratégia comercial para o músico independente. Use o Youtube apenas para divulgar suas obras e para incentivar o seu público a escutar suas músicas em outras plataformas (Spotify, Deezer, etc.) e comprar elas no itunes, no amazon ou em outras plataformas semelhantes de distribuição digital.

 

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